• Depois dos Sessenta
  • Minha mãe, que já está nos oitenta, tem vergonha das vantagens da lei que dá aos idosos e a outras classes de pessoas a prerrogativa de furar filas nos bancos e nas repartições em geral. Para ela, o termo “ idoso ”, por sua natureza muito antecipado para os tempos modernos, evoca a idéia de um ser incapacitado, uma pessoa que não mais conta, um peso para a sociedade. E é por isso que ela aparenta uns dez anos menos. Dia desses fui ao banco pagar uma conta. Havia uma pessoa na fila à minha frente já sendo atendida e prestes a sair. Eis que então surge na fila dos privilegiados uma mulher aparentando uns 50 anos, no máximo. Era um pouco barriguda, o que me fez pensar que estaria grávida, podendo, portanto, receber tratamento diferenciado. Fiquei ali pensando naquilo até que o sujeito à minha frente saiu e, antes que eu pudesse investir num primeiro passo ao caixa, a mulher saltou com invejável velocidade e destreza para um idoso, apontando o indicador para cima como quem exige o lugar, e pronunciando com um olhar de advertência: Idoso ! Abriu uma pasta com documentos e mais documentos e ficou ali no caixa por uns dez minutos. A fila crescia atrás de mim. E então, concluídas suas operações bancárias, ela foi embora, não sem antes trocar algumas amenidades com o caixa com quem parecia manter um relacionamento de antiga amizade, enquanto, sem nenhuma pressa, colocava as contas pagas de volta na pasta. Chegou a minha vez e perguntei ao caixa qual seria a exceção pela qual aquela mulher teria sido atendida com prioridade. E ele me respondeu que ela era aposentada, já tinha mais de sessenta anos. Perguntei por qual razão um aposentado teria tantas contas pagar. E o caixa contou num segredo envergonhado que eram contas de uma empresa. E que tal se tornou prática freqüente. Os “ idosos ” tiram o lugar dos office-boys, aproveitando a regalia que lhes confere a lei para pagar contas de empresas pelas quais são contratados - é claro - , sem carteira assinada, sem chance de reclamatórias trabalhistas, etc., porque são aposentados. Esta prática - para não dizer este golpe -, amparada por uma lei sem controle, está roubando milhares de minutos, milhões de horas e meses de pessoas que produzem trabalho e de empresas que, empregam e pagam salários e impostos. É mais um descalabro sobre o qual não se fala, porque parece politicamente incorreto tocar na “ chaga ” dos idosos. Mas que idosos são estes ?

    Paulo C. Amaral
    Artista plástico e escritor