• Ainda Sobre Saddam Hussein
  • O assunto já era para estar esgotado, mesmo porque os executores de Saddam anteciparam sua morte antes da virada do ano, impedindo, assim, que o fatal acontecimento se sobrepusesse aos fogos de artifício usuais à efeméride do Ano Novo. A morte de Saddam nem mais sequer foi capa de revista, da Veja, por exemplo, mas não deixou de suscitar no mundo inteiro reflexões sobre o valor da vida, mesmo a de um tirano, a de um assassino que, surpreendentemente, postou-se de forma digna diante de seus algozes que procuraram intimidá-lo na hora extrema com manifestações de ódio. Saddam parecia coroado por uma espécie de sabedoria, aceitou o veredito de seu ocaso. Entrei no Youtube e acessei os vídeos. Um horror. Ao ser humano jamais foi dada a oportunidade de conhecer a hora de seu nascimento, mas na maior parte das vezes foi-lhe possível contemplar o advento da morte. No caso de Saddam, que cruzou os umbrais de uma morte consciente, sem dúvida alguma terá sido este um dos únicos momentos dos quais se tem a certeza do que falo. Num desses vídeos, intitulado “ We’re here for you, Saddam ”, David Letterman, aquele imbecil apresentador de programas de televisão, usando de um humor negro tão insensível quanto desproporcional, aproveitou o momento do registro da morte de Saddam parafraseando um comercial que apregoa a venda de celulares com câmeras, destes que possibilitaram o registro da morte do ditador iraquiano. Saddam não pode proferir a última oração que sua fé lhe oferecia. Antes que isso se consumasse, puxaram-lhe o chão do patíbulo e, assim que o nó da forca comprimiu-lhe o pescoço, seus algozes jubilaram-se com gritos de vingança consumada. O resultado está por vir, amparado pela pretensa elevação de um criminoso à condição de mártir por uma causa que já não se sabe, não se identifica claramente e que não mais importa. Diríamos, por hora, a causa da injustiça com que uma vida foi cancelada por uma sucessão de gestos bárbaros, lá e aqui do lado ocidental. Não será surpresa. David Letterman que se cuide.

    Paulo C. Amaral
    Artista plástico e escritor