• “Os Miseráveis ” de Arminda Lopes
  • Não se confunda a miséria com qualquer outro sofrimento, nem mesmo a dor. A dor permite ter-se a noção de sua presença, admite perscrutarem-se as razões de si própria e buscar-lhe o apaziguamento. A miséria não. A miséria é um estado de relativa inconsciência capaz de mergulhar toda e qualquer pessoa num estado de indiferença tão passivo quanto cruel, reduzindo-a à condição sutil de uma subespécie humana. Como mais um tema genérico do qual o mundo se esquivará sempre de prestar contas, a miséria sempre estará presente na mente de todos nós, mesmo nos momentos em que, aquinhoados pela fortuna, possamos experimentar a ventura de viver o que poderíamos comemorar como sendo a vitória instantânea sobre a isenção de sua presença. É-nos permitido, por força de uma conformação social, pensar assim. Afinal somos apenas a circunstância, em geral a mais favorável, sempre que podemos construí-la e vivê-la segundo a nossa vontade. Quero dizer: qualquer pessoa que não esteja absorvida pelas trevas da miséria, qualquer pessoa assim dela isenta pode exercer a sua opção. A miséria, por sua vez, não conhece escolhas de qualquer espécie, ela apenas aceita o que lhe é oferecido logo à frente, absorve o que se lhe dá como uma solução de virtual sobrevivência, por menos eficaz que esta possa ser. Ela nos empurra para um dos dois lados: o da hipotética sobrevivência ou o do fatal abandono. Não existe entre estes extremos nenhuma gradação possível. É oito ou oitenta. Abandono quer dizer morte. Sobrevivência significa algum tipo de energia advindo de qualquer parte, humana ou material, aquela condição disponível aos ricos, aos remediados, aos pobres e aos miseráveis. Deus, talvez Deus - não sei ao certo - tratou de presentear-nos um denominador comum para que resignados possamos aceitar o nosso sofrimento. Acho que foi a Natureza, foi uma breve nesga de sol que penetra numa janela ou sobre um banco de praça num dia muito frio, porém brilhante, por exemplo, quando não se exija esperar mais pelo recrudescimento de uma temperatura algoz. Foi um olhar para o rio margeante de uma cidade indiferente - mas que ainda assim é a nossa cidade -, e nele colocou a possibilidade da descoberta de uma intensa beleza que, aos olhos de qualquer um, dos ricos, dos pobres ou dos miseráveis, em síntese é o mesmo. É possível que ninguém melhor que um miserável possa perceber a graça do ocaso, porque aí é este o breve instante de um presente instantaneamente vivo, possivelmente revestido de alguma felicidade, o único afago viável, já que independe do próximo, em geral indisponível justamente no caso em que mais devesse estar presente para aplacar a dor do vazio da sua miséria. A imposição da luta pela sobrevivência que porte a mínima dignidade faz da miséria um horror mais intenso ainda. Não há meios próprios de planejar esta batalha, de pensá-la, ou de vencê-la, não há forma de compreendê-la diante da necessidade básica de vencer cada momentânea etapa vital. Ao artista, por sua vez, quando lhe toca retratar de alguma forma esta espécie de sofrimento - a mãe de todos os sofrimentos, mais que a guerra, mais que a morte que a muitos pode ser um lenitivo - quero acreditar não deparar-se com empresa fácil, tanto pela escolha do tema quanto pelos meios que utilizará para expressar o seu sentimento e o seu compromisso em traduzir as razões de sua obra. Agora, em Arminda Lopes, que já vinha trabalhando na pesquisa a que denominou “ A Estética da Dor ”, insistindo com profundidade e determinação neste tema universal estampado nas faces pelas quais cruzam nossos olhares indiferentes, somos forçados a volver a uma realidade inescapável que transita entre o abandono e a loucura. A artista persiste numa linguagem muito própria, identificada com a forma real, expressionista – vejo em suas imagens algo de Daumier, algo de Rude, muito de Jean Baptiste Carpeaux, uma linguagem ainda acadêmica, e me pergunto como se atreve a isso, passados duzentos anos daqueles artistas ? A resposta para o sentimento que tenho ao reler sua obra sobre a qual tive o privilégio de escrever outras vezes, tendo, portanto, acompanhado a trajetória da artista, é de relativa simplicidade, se é que a entendi pelo menos em parte: é impossível negar a miséria, e mais ainda, é impossível fazer em torno dela um exercício de abstração a ponto de abstrair-lhe a forma, um simples traço, uma breve alusão, um mero exercício de cores. A miséria, ela é ou ela simplesmente não existe. Não admite generalizar sua expressão básica. Está viva até nos olhos mais poéticos. Ela vai da loucura, ao vício, ela termina por se aliar a todo o tipo de desvio humano, como se lhe fizesse necessário par, está aí, simplesmente, à disposição do olhar que não poderia esquecer-la e que não deveria nega-la. Aos críticos em geral, deveria valer esta intenção de Arminda, a celebração da guarda dos elementos construtivos de sua obra, distanciada – é bem claro - do exercício fugaz e confortável da produção artística, isto é, Arminda prefere retratar diretamente aquilo que vê ou sente, o que deseja compartilhar, mesmo não sendo possível, porque somente os seus são capazes de enxergar aquilo que nós, meros espectadores externos, sequer ousamos ver. Em seu ateliê não se vêem imagens lúdicas. Ele está repleto de fragmentos desta miséria, e para onde se torne o olhar curioso, ele cairá, ora sobre o semblante de uma louca, ora sobre um meliante infantil, ora sobre uma mãe que na memória primeva, animal, dá à luz aquele que realimentará a miséria em todas as sua faces. Estas imagens povoam o dia-a-dia da artista, do desenho à concepção do molde, e deste à fundição. E então surge a obra pronta portadora da mais elementar falta da sanidade, a ausência de qualquer honra. É como se aquelas esculturas estivessem prontas a dizer o que não desejamos escutar, o que nos incomoda, nos açoita e nos enche de culpa. Por quê ? Seria um discurso religioso ? Seria uma observação necessária esta sobre a miséria em toda a sua obviedade ? A necessidade de compreendê-la como parte indissociável do mundo, a necessidade que nas palavras de William Pitt é a alegação que se dá para toda a violação de liberdade humana, o argumento dos tiranos? Mas agora, diante de nós, o que seria esta obra que renunciou à criação da beleza formal e que insiste sobre um tema tão degradante ? Onde se venderão estas peças ? E, se acaso forem adquiridas, onde as colocarão os seus donos senão no mesmo esconderijo em que se possa de todo renunciar à mais gritante verdade contemporânea ? Ela está em todos os lugares. Está nas cidades, está nos campos, está nos resquícios das guerras que assolam o planeta e está em nós que fazemos as guerras. Nós somos a miséria.

    Paulo C. Amaral
    Artista plástico e escritor