É difícil escrever sobre alguém que não se conheceu, a não ser de passagem, e fazer isso justamente em homenagem a esta pessoa que se foi. Tive duas oportunidades de falar com Moacyr Scliar, ou, melhor dizendo, encontramo-nos durante duas atividades de trabalho. Uma vez foi no MARGS, para o lançamento do projeto do filme O Exército de um Homem Só, baseado em livro de sua autoria. A outra foi no Theatro São Pedro quando a convite da Federação Israelita do RS fui mediador de um debate após a exibição de estréia da peça “A Alma Imoral”, de Nilton Bonder e interpretada magnificamente por Patricia Niskier. Nas duas ocasiões – ele era já imortal – deparei com um homem que de saída não sorria muito; ao contrário, parecia incomodado com alguma coisa. Quase emburrado. Depois, no decorrer de suas intervenções espirituosas a não mais poder nessas ocasiões, principalmente quando apelava para o humor judaico do qual foi contador mestre, ele ia se soltando, ia esboçando certa familiaridade com o ambiente, e terminava num sorriso que revelava o homem verdadeiro que guardava escondido em si. Agora, de matéria pronta para este espaço no Usina do Porto que já ia ao prelo, o Jorge Olup, nosso editor, me pede para escrever alguma coisa sobre o grande imortal da Academia Brasileira de Letras. Então ocorreu-me apenas repetir uma síntese de depoimentos que ouvi e li hoje sobre o Moacyr Scliar, nos quais sobressai a certeza de que ele foi um espírito agregador e um homem generoso. Talvez por sua humildade de toda a sorte, como aquela que o fazia repetir a história real de que em sua infância ele e os irmãos, que viviam com os pais pobres no Bom Fim, tinham os lençóis feitos de sacos de farinha usados. Talvez por isso fosse o homem frugal, como conta Nejar, seu colega gaúcho de Academia. Foi, como disse Affondo Romano de Sant’Anna um escritor que construiu sua obra pela disciplina: folha sobre folha, capítulo sobre capítulo, incansável homem das letras, que deveria servir de modelo aos novos. Diversas vezes ele escreveu aqui para USINA DO PORTO, atendendo ao pedido de nosso editor, sempre em busca de matérias de qualidade. E escreveu de forma gratuita, com todo o desapego. A questão seria perguntar por que um escritor com mais de setenta obras traduzidas para dezenas de idiomas, o articulista de jornais nacionais da maior envergadura atendia prontamente às solicitações do USINA DO PORTO. Faltou-nos perguntar-lhe isso. É que Scliar prezava a cultura em geral, e a de sua cidade, Porto Alegre, em particular. Estes valores estavam não só acima dos outros, mas constituíam na verdade a razão de sua existência como médico sanitarista e escritor gigante. A todos nós faltou agradecer-lhe de todo o coração, porque não sabíamos que ele ia partir tão cedo.